Cinco distopias para ler

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Um dos grandes humanistas do Renascimento, Thomas Morus cunhou o termo “Utopia” em 1516 ao batizar assim sua obra-prima, metade crítica à Inglaterra onde vivia e metade especulação sobre a sociedade perfeita, a ilha Utopia. Na ilha que Morus imaginou, reinava a tolerância religiosa, fanáticos eram exilados, a paz era absoluta e conceitos como propriedade e dinheiro foram abolidos em nome da felicidade. O nome até virou sinônimo de conceito ou lugar ideais porém impossíveis de se alcançar. E como seria o contrário disso?

Séculos depois, no ano de 1868, o pensador liberal John Stuart Mill acompanhado de Greg Webber fez um discurso ao Parlamento Britânico onde acusava a defesa de alguns de uma “distopia” (”dis-”, do grego dor, dificuldade), algo ruim demais para existir de verdade. Não demorou muito para que, no século vinte, um tipo de ficção especulativa que se utilizasse desse conceito ganhasse cada vez mais força. Autores passaram a descrever cenários onde problemas sociais reais ganhavam contornos grotescos.

Praticamente todos os problemas e angústias do século vinte serviram como matéria prima: o totalitarismo, a desigualdade social, os perigos da tecnologia, a violência das metrópoles, a discriminação, a intolerância… Abaixo segue a apresentação de cinco livros que, apesar de falarem sobre cenários fantásticos, todos são de algum modo assustadoramente reais.

Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932)

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Sobre o que é: Mais baixo que a maioria, Bernard Marx está insatisfeito com a sociedade onde vive – um mundo regido por sólidos princípios científicos, onde as pessoas são separadas em castas, nascem por meios artificiais, a religião é vista como ultrapassada, o sexo é frívolo e desapaixonado, drogas são utilizadas para melhorar o humor as artes no geral apenas repetem fórmulas simplórias. A reviravolta se dá quando Marx encontra o selvagem John em uma reserva, e numa tentativa de ganhar mais respeito social o traz para o Admirável Mundo Novo – e do contraponto cultural nasce o grande conflito do livro.

Por que ler: Houve uma curiosa troca de correspondência entre Huxley e Orwell, que você pode ler aqui, onde o escritor afirma que o governo não precisaria reprimir a rebelião em seus indivíduos se estes fossem suficientemente idiotizados pelo sistema. É o caso que encontramos e em Admirável Mundo Novo – seus protagonistas em sua grande parte são incapazes de se rebelar como acontecia na história de Winston Smith pois desconhecem tal conceito e é por isso que John – religioso, nascido de mulher, leitor de Shakespeare – é recebido com um misto de curiosidade e aversão. Admirável Mundo Novo é sobre essa ditadura do conformismo, com uma crítica dolorosa e ainda atual: pior que encarcerar pessoas é ensinar as mesmas a amar a própria jaula, estimando o cárcere como liberdade.

Uma citação do livro: “Eu não quero conforto. Eu quero Deus. Eu quero poesia. Quero perigo de verdade. Quero liberdade. Quero bondade. Quero pecado.”

1984 (George Orwell, 1949)

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Sobre o que é: O mundo se divide em três impérios: Oceania, Eurásia e Lestásia. A Inglaterra está sob domínio do IngSoc, o Socialismo Inglês, cuja figura central de autoridade é o Grande Irmão, mantendo seus cidadãos sob vigilância constante e exigindo adoração inquestionável. Winston Smith, um funcionário medíocre do Ministério da Verdade da Oceania – órgão responsável pela censura -, passa a se sentir atraído pela companheira de trabalho Júlia e se aproxima de O’Brien, um funcionário do Partido Interino com ideias conspiratórias.

Por que ler: O livro de Orwell, assim como o anterior A Revolução dos Bichos (1945), é uma parábola sobre a União Soviética e seu chefe de estado Joseph Stalin. Entusiasta da social-democracia e simpatizante do anarquismo, ganhou destaque como jornalista, cronista e ensaísta político, tendo uma carreira de cerca de vinte anos até este livro, seu canto do cisne, que entrou para a história da literatura do século 20.  Do livro, surgiram termos icônicos como “Novilíngua”, “duplipensar” e “Big Brother”, que compõem uma sátira aterrorizante do poder que o Estado pode vir a ter sobre seus indivíduos.

Uma citação do livro: “Se você quer ter uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano – para sempre.”

Fahrenheit 451 (Ray Bradbury, 1953)

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Sobre o que é: Todos os livros foram banidos. O pensamento individual é considerado perigoso e censurável. As pessoas vivem uma rotina de ver televisão e ignorar os inúmeros  problemas sociais que tomam as ruas. Guy Montag,  assim como o pai e o avô,  é um bombeiro: ironicamente, um profissional dedicado a queimar livros e perseguir os seus donos. Seu drama e sua emancipação começam,  justamente,  quando lê acidentalmente a primeira linha de um deles,  o que é o princípio da ruína de suas frágeis certezas no sistema para o qual colabora. Adaptado para o cinema em 1966 por François Truffaut.

Por que ler: Ray Bradbury,  além de escritor,  foi um grande defensor da importância da literatura para a sociedade. A distopia Fahrenheit 451 é sua grande metáfora sobre como seria uma sociedade que não lê. Seus indivíduos tem dificuldade em formular pensamentos abstratos; levam vidas superficiais e consumistas mas ao mesmo tempo angustiadas, sem saber a causa de sua aflição; e sentem medo e desconfiança leitores e livres pensadores. Escrito poucos anos após o fim da Segunda Guerra, onde a Alemanha Nazista nos mostrou a imagem terrível de livros sendo queimados por uma turba enfurecida, o livro de Bradbury tornou-se icônico ao evidenciar com fúria apaixonada a relação entre caos social e cultura amordaçada.

Uma citação do livro: “Não precisamos que nos deixem em paz. Precisamos realmente ser incomodados de vez em quando. Quanto tempo faz que você não é realmente incomodada? Por alguma coisa importante, por alguma coisa real?”

Laranja Mecânica (Anthony Burgess, 1962)

A Clockwork Orange

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Sobre o que é: Na Inglaterra de um futuro próximo, gangues de delinquentes juvenis aterrorizam as ruas. Um deles é o narrador do livro, Alex DeLarge, que juntos com seus parceiros de crime vive de escutar música alta, se drogar, brigar com rivais  e estuprar e agredir qualquer vítima que apareça pela frente. Ao cometer um homcídio e ir para a prisão, se candidata ao Tratamento Ludovico, uma terapia condicionante que faz com que a cobaia sinta repulsa física pela violência. De volta às ruas quando o consideram recuperado, Alex irá comer o pão que o diabo amassou nas mãos de várias de suas antigas vítimas e ex-parceiros. Adaptado para o cinema por Stanley Kubrick em 1971.

Por que ler: Existem poucos protagonistas mais carismáticos que Alex DeLarge – cínico, amoral, violento, amante de música clássica…  Assim como a narração: Burgess criou todo um vocabulário de expressões cheio de palavras vindas de diferentes línguas para satirizar as gírias das tribos urbanas crescentes à época. Toda a explosão recheada de inconsequência imatura é destruída nos atos seguintes, onde Alex é uma metáfora para Burgess questionar as relações entre Estado e individualidade e controle e livre-arbítrio. De onde vem o título, inclusive: o personagem pode parecer salgo vivo tal qual uma laranja, mas incapaz de decidir, é uma “máquina” que qualquer um pode operar. Referência em faculdades de Direito e Psicologia, o livro condena e se aterroriza com a ideia que em nome de uma ilusão de controle a subjetividade particular de cada um possa começar a ser negociada.

Uma citação do livro: “A questão é se uma técnica dessas pode realmente fazer um homem bom. A bondade vem de dentro. A bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, deixa de ser homem. 

Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Philip K. Dick, 1968)

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Sobre o que é: A tecnologia progrediu. O resto não. Em 2021, em uma São Francisco pós-apocalíptica, a maior parte do mundo foi varrida em um conflito nuclear. A maior parte dos animais está sumindo ou já foi extinta. As Nações Unidas encorajam colônias extra-planetárias. É nesse terreno desolado que Rick Deckard, um caçador de recompensas, é encarregado de eliminar seis andróides fugitivos, robôs que parecem humanos criados para servir a espécie, que desenvolvem cada vez mais personalidades individuais. A fé de Deckard em seu trabalhado é abalada quando é confundido por um oficial de polícia com um dos andróides, o que leva o protagonista a questionar o que seria “ser humano”. Adaptado para o cinema em 1982 por Ridley Scott sob o título Blade Runner.

Por que ler: Philip K. Dick, entre muitas outras honrarias, é considerado um dos pais do filão cyberpunk, estilo definido como “alta tecnologia e baixo nível de vida”, onde o mundo é governado de forma corporativista, com empresas privadas tomando as decisões e com o governo sendo um mero Estado-fantoche. Com o progresso a qualquer custo arrasando com a vida natural do planeta e deixando a maioria esmagadora da população desassistida, Deckard surge quase como um detetive de literatura policial noir, amargurado e cheio de incertezas sobre a realidade que presencia. Naquele que é talvez sua grande obra, Philip promoveu o encontro da ficção especulativa com as correntes filosóficas existencialistas – tônica dada já pelo irônico título – inaugurando uma era inédita e vigorosa do sci-fi contemporâneo.

Uma citação do livro: “Você será requisitado a fazer coisas erradas não importa para onde vá. É a condição básica da vida, ser obrigado a violar a própria identidade. Em algum momento, toda criatura vivente deve fazer isso. É a sombra derradeira, o defeito da criação; é a maldição em curso, a maldição que alimenta toda a vida. Em todo lugar do universo.”

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