Guia de Leitura para Iniciantes em Vertigo

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Refletindo de maneira posterior em relação a outras artes a modernização de valores e transformações culturais, as histórias em quadrinhos encontraram no selo Vertigo da DC Comics uma das vozes ideais para deixar de lado a inocência e as fórmulas para abordar temas mais adultos e investir em propostas estético-narrativas mais radicais.

Um dos pilares dessa transformação nas histórias em quadrinhos foi a editora-chefe Vertigo, fundada em 1993 por Karen Berger, que começou na DC em 1979 e em 1983 já era editora da famosa série Mulher-Maravilha, revitalizando a protagonista junto ao escritor e ilustrador George Pérez ao criar histórias com mais elementos mitológicos combinados com temas da atualidade (como racismo, feminismo, etc.).

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Karen Berger com Grant Morrison em 1988: a editora que revolucionou os quadrinhos contemporâneos.

A semente  da Vertigo começou quando Karen contratou um roteirista inglês em ascensão por suas histórias V de Vingança e Miracleman: Alan Moore. A injeção de sangue novo com histórias ambíguas e temas adultos levou os quadrinhos a limites nunca antes vistos. O meio de expressão alcançava sua maturidade com obras-primas como Watchmen e Batman – A Piada Mortal.

Com o sucesso de Moore, Berger foi enviada pela DC Comics ao Reino Unido em 1987 para procurar novos autores para editora. A Terra da Rainha era berço de uma nova geração de roteiristas que Karen conheceu: Neil Gaiman, Jamie Delano, Grant Morrison, Peter Milligan… O estrago estava feito.

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A Liga Extraordinária: Warren Ellis, Grant Morrison, Alan Moore, Neil Gaiman e Garth Ennis.

Entre personagens inéditos e reinventados, nenhuma restrição foi feita. O único caminho a se evitar era o óbvio. Para comportar as novas séries criadas e separar os quadrinhos adultos dos mais “família” Karen fundou a Vertigo em 1993, com a primeira HQ publicada sendo Morte – O Preço da Vida #1. A contracultura dos quadrinhos agora tinha casa e lugar.

Durante três décadas Karen e seus contratados criaram um universo grande e complexo. Chega a ser difícil acompanhar tal mundo – a maioria apenas ouve falar mil maravilhas sobre seus autores e como eles revolucionaram a história dos quadrinhos. Segue, então, um pequeno guia de algumas das melhores obras relacionadas ao selo, direta ou indiretamente. Portanto, sem perder mais tempo…

A Saga do Monstro do Pântano (Alan Moore, 1984-1987)

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Não dá para matar um vegetal atirando em sua cabeça.

O quadrinho que alçou Moore ao mercado internacional. O criador Len Wein contratou Moore para o segundo arco de suas histórias nos anos 80 e Karen Berger deu carta branca para reinventar o personagem. As histórias abandonaram a premissa de “como voltar a ser humano” e ganharam panos de fundo ecológicos e sociais, com o Monstro indo para outras dimensões, conhecendo outras entidades místicas e refletindo sobre a intervenção humana na Terra em histórias nem um pouco infantis.

V de Vingança (Alan Moore, 1988-1989)

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Ideias são à prova de balas.

Quando a revista britânica Warrior foi cancelada, levou junto uma de suas histórias menos populares, V de Vingança. Quando seu autor Alan Moore ganhou notoriedade internacional pôde republicar à cores e completar sua saga distópica, onde uma Inglaterra dominada por um regime fascista é balançada pela ação do terrorista de inspirações anarquistas V. Com um debate sério e maduro sobre política, marcou época e ao virar filme tornou-se ícone de inconformismo para a nova geração.

Hellblazer (vários, 1988 – 2013)

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Não sou o sujeito mais legal que você já conheceu. Mas faço o que posso.

Saído das páginas do Monstro do Pântano para ganhar sua própria série, John Constantine é um ícone, talvez o personagem mais carismático e amado do selo. Um bruxo viciado em cigarros, dotado de grande perspicácia e cinismo, tão moralmente falho quanto empático. Com histórias andando na corda bamba entre melancolia, humor inglês e horror escabroso, sempre às voltas com demônios, deuses esquecidos, psicopatas e outras figuras não muito agradáveis, John foi roteirizado por todos os grandes autores da Vertigo, como Jamie Delano, Neil Gaiman, Garth Ennis e Warren Ellis. Tendo a série mais longeva da Vertigo, é o legítimo “xodó” do selo.

Sandman (Neil Gaiman, 1989 – 1996)

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Como você se sentiria sobre a vida se sua irmã mais velha fosse a Morte?

A série que revelou ao mundo o talento para o fantástico e o onírico de Neil Gaiman, Sandman é a história do sombrio e melancólico Morfeu, a personificação do Sonho. Somos apresentados a ele quando o mesmo escapa de um longo cárcere para então passamos a acompanhar seu improvável dia-a-dia como regente do mundo dos sonhos, onde lida com todo tipo de situação e personagem inusitado. Sandman é sinônimo de quadrinho cult: erudito e pop ao mesmo tempo, com histórias baseadas em poucas reviravoltas e muitos diálogos e uma legião de fãs do estilo reflexivo e alternativo de Gaiman.

Os Invisíveis (Grant Morrison, 1994 – 2000)

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Há um palácio em sua cabeça, garoto. Aprenda a viver lá sempre.

Uma grupo de especialistas quer libertar a humanidade do domínio de seres que nos influenciam através de seus agentes plantados em nosso mundo. Não, não é o filme Matrix: é o quadrinho Os Invisíveis, influência confessa das irmãs Wachowski na concepção do neoclássico de ficção científica. Apresentado uma verdadeira salada multicutural, com referências que vão de teoria do caos à mitologia asteca, de Marquês de Sade a Beatles, a HQ iniciou com baixo desempenho nas vendas mas lá pelo seu final competia a atenção com os carros-chefe do selo. Terminou com Grant Morrison angariando a reputação de “gênio insano”, com um experimentalismo formal sempre relevante que foram a cara dos confusos anos 90.

Preacher (Garth Ennis, 1995 – 2000)

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Nós não temos que apenas aceitar o jeito que as coisas são.

Chamado por alguns de o Tarantino dos quadrinhos, o norte-irlandês Garth Ennis preencheu o espaço que Sandman deixou vazio quando terminou em 96 com o seu hit Preacher. Quando o pastor Jesse Custer recebe um dom divino de fazer qualquer um obedecer às suas ordens, decide formar uma aliança com a pistoleira Tulipa O’Hare e o vampiro punk irlandês Cassidy e sair pela América para encontrar Deus, que abandonou a humanidade à própria sorte. Mesclando elementos de faroeste, road movie, horror e humor negro, Ennis e o desenhista Steve Dillon criaram um universo icônico, tão belo quanto grotesco, hilário e dramático na mesma proporção. Virou série na AMC, estreando em 22 de maio de 2016.

Transmetropolitan (Warren Ellis, 1997-2002)

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Eu não tenho que aturar essa merda! Eu sou um jornalista!

Em um distópico século 23, Spider Jerusalem é um excêntrico jornalista revoltado com o rumo que a sociedade onde vive tomou. Entre histórias curtas e arcos maiores, Spider enfrenta o abuso de poder, corrupção governamental e o consumismo generalizado de The City. Inspirado na persona e nos escritos de Hunter S. Thompson, o protagonista da série de Warren Ellis nasceu no selo de ficção científica Helix e quando o mesmo acabou passou para a Vertigo, onde durou mais quatro anos. Pavio-curto, boca-suja e idealista, Spider Jerusalem é a síntese perfeita do estilo insólito de Ellis, onde ele sempre pode discursar sobre democracia, tecnologia, história e os mais diversos assuntos. Conseguiu aclamação crítica e portas abertas em todas as editoras desde então.

100 Balas (Brian Azzarello, 1999 – 2009)

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Não é óbvio, Dizzy? Eles são os caras maus.

Para os desesperados, o agente Graves tem uma proposta sedutora: uma valise com uma Smith & Wesson, cem balas impossíveis de se rastrear e evidências irrefutáveis contra o malfeitor. Uma licença para a vingança. À medida que a história se desdobra, descobrimos sobre mais sobre o passado de Graves e de algumas das pessoas que receberam as tais cem balas. O clima de crime e conspiração de Brian Azzarello encontra-se representado no desenho estilizado de Eduardo Risso, que cria um jogo de sombras na melhor tradição do film noir utilizando as cores berrantes das histórias em quadrinhos que caíram como uma luva em seu tempo. 100 Balas é o grande representante do policial moderno nas HQs.

Fábulas (Bill Willingham, 2002 – 2015)

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Sem mais finais felizes.

E se os personagens dos contos de fada existissem, morassem onde nós moramos e tivessem problemas não muito distantes dos nossos? Essa é a proposta de Bill Willingham, especialista em mostrar os “bastidores” dos mitos (como fez em Sandman apresenta Contos Fabulosos) e de sua obra-prima Fábulas, onde a Branca de Neve e o Lobo Mau trabalham como delegada e xerife de uma cidade cheia de fábulas problemáticas, com problemas de bebida, sofrendo por amor, brigando nas ruas, conspirando na política… Em um mundo onde a Cinderela é uma espiã internacional,  o João do Pé Feijão é um trapaceiro carismático e a Bela e a Fera são um casal de classe média que vive discutindo, dá para esperar de tudo da criatividade inesgotável de Willingham. Foi adaptado para os videogames sob o nome de The Wolf Among Us.

Y: O Último Homem (Brian K. Vaughan, 2002 – 2008)

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A queda do Homem.

De repente, não mais que de repente, todos os mamíferos do sexo masculino caíram mortos ao mesmo tempo. Todos menos Yorick Brown e Ampersand, seu macaco-prego de estimação. Escoltado pela Agente 355 – privilégio por ser filho de uma deputada – Yorick parte atrás da doutora geneticista Allisson Mann em busca de uma explicação do que aconteceu – e quem sabe uma solução. A série foi celebrada pela qualidade da escrita de seus personagens, conquistando fãs famosos – Stephen King disse que foi o melhor quadrinho que já leu. Histórias cataclísmicas sempre são um prato cheio para falar de política e sociedade, e a aclamada e premiada história de K. Vaughan não é diferente. O gosto pela temática repetiu-se no trabalho para a televisão, escrevendo e produzindo duas temporadas de Lost e sendo o showrunner de Sob a Redoma.

Escalpo (Jason Aaron, 2007 – 2012)

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Conheça Cavalo Ruim, o injun mais malvado do oeste do Mississippi.

Meio faroeste e meio policial, Escalpo pegou a inspiração de sua criação na história real do ativista ameríndio Leonard Peltier, preso acusado de assassinar dois agentes do FBI em 1975. Contratado originalmente para fazer um reboot do personagem Escalpador, a história acabou transcendendo e o autor Aaron abandonou a proposta a favor da trama original. Dashiell Cavalo Ruim volta à sua reserva indígena depois de 15 anos para servir de agente duplo do Bureau de Investigação, infiltrado no exército particular do corrupto líder da aldeia Corvo Vermelho. Sem medo de enfocar temas controversos que assolam o cotidiano das reservas indígenas, como miséria, crime organizado e vício, além da violência nua e crua que levou a história em 60 edições ser uma das HQs mais aclamadas dos últimos anos.

Vampiro Americano (Scott Snyder, 2010 – )

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Para os mortos-vivos, o tempo é uma piada para se gargalhar.

Com a participação temporária do escritor best-seller Stephen King como roteirista das histórias secundárias e arte estilizada do brasileiro Rafael Albuquerque, Vampiro Americano traz a mescla de gêneros habitual da Vertigo, apresentando a relação de vampiros com vários períodos da história norte-americana, começando por um escritor da década de vinte que afirma que seus livros que mesclam terror e faroeste são inspirados em fatos reais. Criado para ser a oposição à grandes produções adolescentes sobre o mesmo tema – Crepúsculo, True Blood, The Vampire Diaries… -, Vampiro Americano se distancia dos vampiros galantes e atormentados e cria verdadeiros monstros feios, sujos e malvados, promovendo frequentes banhos de sangue aliados a revisionismo e desconstrução da história dos Estados Unidos. Ao final do seu primeiro ano de publicação, já papava prêmios Eisner e Harvey e nem a saída de King conseguiu frear a escalada rumo ao topo. A última palavra do selo em quadrinhos para o público maduro.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Edson Pelicer disse:

    A Vertigo mudou tudo para sempre! Ainda bem!

    Curtir

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