Vivendo sem celular: três meses de descobertas e (res)significações.

 

william_christina

Ficar sem um smartphone é uma experiência significante de todas as maneiras que “experiências significantes” podem ser. Arrisco dizer que é um verdadeiro exercício de (re)descoberta de quem se é nos tempos e espaços atuais.

Foram três meses sem celular e as primeiras reações ao meu retorno ao mundo da comunicação móvel e instantânea me fizeram mais uma vez pensar a relação que estabelecemos com nossos gadgets. Ainda que eu estivesse, durante esses 90 dias, acessando diariamente Facebook e Email, atualizando esporadicamente o Instagram, encontrando pessoalmente meus afetos com a mesma frequência anterior e acessível para eventual contato em um telefone fixo, “voltou do exílio”, “aleluia”, “finalmente”, “bem vinda de volta à civilização”, “agora sim a gente pode conversar direito”, foram algumas das falas que – incluindo uma versão bem-humorada da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias – permearam o meu dia. Não tão agradável quanto a euforia da recepção virtual, foi perceber um iminente desespero ao me dar conta que o WhatsApp tinha me removido de todos os grupos. E agora? Será que vão pensar que eu saí deliberadamente? Vão me achar antipática? Vão me colocar de volta? Isso vai abalar as amizades?  Socorro!

Porque estamos todos pretensamente conectados, qualquer desvio no padrão causa desconforto. A comunicação se torna mais difícil. Os compromissos, os encontros, o estar presente também. Mas não é bizarro precisarmos de aparelhos para estar em contato com o(s) outro(s)? Não seria a capacidade humana de criar vínculos e fazer acordos o suficiente para estabelecer e manter laços? Uma mensagem não respondida em 10 minutos significa realmente muito mais do que o abraço real dado há 2 dias?

“Ah, mas ter um celular faz-tudo facilita muito a vida, ajuda a resolver problemas e a poupar tempo.”

Sim, de fato, ficar sem celular tem mil inconvenientes, mas nada desesperador ou alarmante. Até onde me consta, tal ajuda serve para resolver problemas que até bem pouco tempo (5, 10 anos?) nós resolvíamos sem o suporte de um telefone inteligente. Estaríamos nós emburrecendo? Nossa inteligência já não é suficiente pra dar conta das demandas do mundo? Nossas habilidades físicas e emocionais já não correspondem às expectativas da sociedade? E, se sim, por que estamos nos obrigando a realizar mais do que podemos? Lidar com dificuldades faz parte da vida. Esperar mais tempo pelo que quer que seja, não estar disponível fora do horário de trabalho, pegar um caminho errado, ir à toa a um lugar, escolher intuitivamente uma pizzaria e detestar o resultado ou passar horas dentro de um ônibus lotado sem contar para oito pessoas espalhadas pelo mundo que o trânsito da sua cidade está horrível, por exemplo, também são experiências válidas.

Ao nos aceitarmos dependentes de uma tecnologia estamos incapacitando nossos corpos e minando a potência criativa de nossas ações. E, sejamos francos, não é como se a gente precisasse de um celular para respirar, não é mesmo? Em um artigo para o site Gizmodo, o escritor Cord Jefferson mostrou-se indignado com o resultado de uma pesquisa realizada pela OPA Study – Online Publishing Association, em que 68% dos usuários de smartphones diziam não conseguir viver sem eles.

“A menos que eu esteja realmente por fora dos avanços tecnológicos, os smartphones não lhe dão de comer, água não brota deles e eles tampouco fabricam roupas. Eles não fazem fogo, produzem remédios ou dão crianças à luz. Os smartphones, com suas páginas de apps e funções bem mais ou menos de ‘assistentes pessoais inteligentes’, não são capazes de protegê-lo da chuva ou ajudá-lo contra uma investida de hienas raivosas. Se você disser que gosta do seu smartphone porque o considera uma ferramenta útil para tornar a vida mais simples, isso faz muito sentido. Mais poder para você. Mas martelos também são ferramentas úteis para tornar a vida mais simples e, ainda assim, eu não consigo visualizar um mundo onde quase 70% dos proprietários de martelos diga que não conseguiria viver sem seus batedores de pregos. Proclamar que você não consegue viver sem o seu smartphone não é apenas errado, é de certa forma ofensivo. É como dizer que você não conseguiria viver sem ar condicionado ou Breaking Bad ou presentes no Natal. A maioria das pessoas do mundo vive sem essas coisas e a maioria delas, adivinhe, vive razoavelmente feliz. Ainda assim, 68% dos usuários de smartphones querem sugerir, tacitamente, que as vidas dessas pessoas não vale a pena porque elas não carregam em seus bolsos um celular que diz a previsão do tempo ou permite jogar Plants vs. Zombies. Tente dizer a uma criança da Bósnia que teve a sua casa cravejada por tiros que você não consegue viver sem seu smartphone. Veja quanta simpatia você terá dela.”

É precisamente sobre essa capacidade de colocar-se no lugar do outro e compreender a realidade alheia que a socióloga norte-americana Sherry Turkle, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), fala em seu mais recente trabalho, Reclaiming Conversation: The Power of Talk in a Digital Age, publicado em 2015. Segundo Turkle, estamos perdendo a habilidade de conversar e a nossa intensa submissão à virtualidade acarretou um atrofiamento de capacidades humanas como empatia e auto-reflexão. Para a autora, o “eu idealizado” que criamos com as redes sociais deixam o “eu real” cada vez mais isolado porque nos comunicamos incessante e simultaneamente, mas temos medo uma conversa cara a cara. Falar pessoalmente com alguém pressupõe contatar o outro, reconhecer sua humanidade, lidar com as possibilidades desse encontro e estar vulnerável ao acaso das ações e reações. A perda significativa de contatos reais e a consequente substituição por comunicação eletrônica coloca em risco elementos constitutivos da humanidade, como as trocas, os afetos e a imprevisibilidade das interações.

Turkle já havia abordado a questão da solidão compartilhada em seu livro anterior, Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other, publicado em 2011, onde constatou que cada vez mais damos preferência ao senso de comunidade ofertado pelas redes virtuais de sociabilidade porque a mesma viria sem os perigos e comprometimentos de uma comunidade real. Em uma palestra apresentada ao TED, Sherry analisa como nossos dispositivos móveis são tão potentes psicologicamente que não apenas alteram o que e como fazemos, mas também o que e como somos e como nos relacionamos. Ao longo de aproximadamente 20 minutos, ela nos propõe pensar se as conexões que estamos estabelecendo  são, de fato, como queremos.

Em diálogo com a perspectiva de Turkle, Zygmunt Bauman, crítico pungente das relações sociais atuais, aponta a hiperconectividade como um mecanismo de escape encontrado pelos indivíduos para aplacar o medo, sintoma sempre presente na modernidade líquida. O medo, advindo  da impermanência do real, nos impele a inúmeras conexões, seja qual for a ferramenta digital que usamos, acreditando que a quantidade de interações vai superar a qualidade do que gostaríamos de ter.

 

Há exatos 90 dias meu celular – um smartphone simples, sem grandes pretensões, que me pertencia há 2 anos e realizava tarefas básicas como acessar redes sociais, armazenar músicas, enviar mensagens instantâneas e até mesmo fazer ligações (!) – partia para o limbo dos aparelhos vítimas de morte súbita. A primeira reação foi de pânico. Em seguida, a óbvia constatação de que estar em meu quarto trocando mensagens com cinco pessoas não me faz menos sozinha do que se eu estivesse lendo ou encarando o teto. A diferença é que, ao ligarmos nossos aparelhos, experimentamos uma falsa sensação de proximidade, uma ilusão amortecedora de que estamos conectados. Nesse sentido, optar por não comprar um novo telefone significou trocar a solidão compartilhada por uma eventual solitude.

Passados os primeiros dias e o desconforto inicial, todo o resto foi de experimentação, (re)descoberta e liberdade. Experimentação de novos usos e novas práticas para tempos normalmente preenchidos pelo ato mecânico de tirar o celular da bolsa e conferir todas as atualizações de todas as redes em que estamos conectados. (Re)descoberta de como é incrível retomar antigos jeitos de fazer as mesmas coisas e como é possível manter uma vida completamente normal sem usar um aparelho que reúna todas as últimas palavras em tecnologia. Liberdade por ser possível prescindir do automatismo e escolher se quero ou não lidar com os impactos da hiperconectividade.

As imagens usadas para ilustrar esse texto são de autoria do fotógrafo Eric Pickersgill que, para retratar o comportamento que vem sendo chamado de nomofobia, decidiu criar a série fotográfica Removed, em que as pessoas são clicadas reproduzindo cenas cotidianas do uso de tablets e smartphones, porém sem os aparelhos em suas mãos. O resultado é impactante e nos convida a repensar os próprios hábitos.

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