Arte, Política e Iconoclastia – Laibach e a NSK

Mais do que um grupo musical, os eslovenos do Laibach caminharam por diversas mídias, sempre se reinventando com sua arte provocante e iconoclasta, conquistando diferentes tribos e causando desconforto em algumas autoridades por tratar de assuntos considerados tabus. Sua história e seu legado, apesar de um tanto obscuros, influenciaram e continuam influenciando muitos artistas no mundo todo.

Década de 1980. Uma era marcada pelo início do fim da Guerra Fria. Enquanto os Estados Unidos e a União Soviética ameaçavam o mundo com um possível confronto nuclear, a república socialista da Iugoslávia passava por um momento de instabilidade após a morte de seu líder Josip Broz Tito, o que aos poucos levaria ao desmoronamento do regime e à independência de seus povos, que até então conviviam como um só. Na cidade de Trbovlje, na Eslovênia, um grupo de jovens artistas viria a causar muita polêmica com sua arte subversiva. O coletivo NSK (Neue Slowenische Kunst, ou “nova arte eslovena”) foi um projeto criado por artistas de diversas áreas (teatro, música, pintura, etc) e que se utilizava de uma estética peculiar e muitas vezes com um aspecto totalitário, como uma forma de parodiar os traços do totalitarismo existentes no sitema. Laibach, o lado musical e fundador da NSK, foi o grupo que mais se destacou.

O nome da banda é a palavra alemã para Ljubljana, capital da Eslovênia, e que no passado havia sido ocupada pelos nazistas. Tratando de temas diversos como política, cultura, civilização e religião, o grupo se apresentava vestindo uniformes militares, o que por muito tempo foi uma característica marcante da banda. Sua extensa discografia, que ao longo dos anos flertou com estilos como o industrial, neo clássico, techno e até mesmo música pop, juntamente com a estética da NSK, sempre causou muita confusão e estranhamento, de modo que Laibach já foi chamado por autoridades de vários países ora de fascista, ora comunista, e às vezes satanista.

Logo nos primeiros anos de sua carreira, o grupo foi proibido de se apresentar na Iugoslávia em 1982, e tendo seu nome banido se viu obrigado a lançar o álbum de estreia sem o nome da banda, em 1985, cuja capa é ilustrada por uma cruz negra, seu símbolo mais emblemático. Assinando contratos com diferentes gravadoras independendes da Europa lançam mais 2 LPs, “Rekapitulacija 1980-1984” (1985) e “Nova Akropola” (1986), e embarcando em sua primeira turnê, chamada “Occupied Europe Tour”, assinam contrato com a britânica Mute Records (a mesma que trabalhou com Depeche Mode, Nick Cave, entre outros) e lançam seu terceiro álbum, Opus Dei (1987), considerado por muitos sua obra-prima. A imagem de uma suástica formada por quatro machados na arte do álbum é reprodução de uma obra originalmente criada por John Heartfield, ou “Helmut Herzfeld” (1891-1968), alemão que anglicizou seu nome em respota ao crescente nacionalismo na Alemanha da primeira metade do século XX. Seus trabalhos, de caráter anti-nazista, foram frequentemente aproveitados na arte gráfica do Laibach.

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A faixa “Geburt einer Nation” (Nascimento de uma Nação), épica e com bateria marcante, é uma versão de “One Vision”, do Queen. Já as faixas “Leben heisst Leben” e “Opus Dei” são duas versões de “Life is Life”, da banda Opus. As versões inusitadas de grandes hits da música pop se tornaram outra característica notória do Laibach, rendendo-lhe sucesso mundial. Posteriormente também gravaram músicas dos Rolling Stones e muitos outros, até mesmo sua própria versão do álbum Let it Be, dos Beatles, sempre apresentando uma atmosfera e um significado diferentes das composições originais.

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Com o fim da Guerra Fria e a gradual queda dos regimes socialistas, é lançado o álbum “Kapital” (1992) explorando temas diferentes como capitalismo e crise econômica, acompanhados de um som mais eletrônico, e uma estética futurista, como no vídeo de “Wirtschaft ist Tot” (A Economia está Morta), que soa como um elo perdido entre Kraftwerk e Rammstein, com um visual que lembra bastante o filme Metropolis, de Fritz Lang.

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A independência dos países que formavam a Iugoslávia é marcada pelo despertar de um sentimento nacionalista que dá início a guerras étnicas sangrentas. O álbum “NATO” (1994) é inspirado nesse clima, e traz suas próprias versões de músicas sobre guerra e fim do mundo, como “Dogs of War” de Pink Floyd, e “Final Countdown”, do Europe. O vídeo deste último também é uma propaganda do recém-criado “NSK State”, ou Estado da NSK, que então se declara o primeiro Estado Global do universo, uma utopia que não possui dimensões territoriais, e que emite passaportes fisicos para quaisquer cidadãos interessados, independente de nacionalidade, cor, gênero, religião, etc. A criação deste Estado, por só existir virtualmente, transcende as concepções de Estado e nação como conhecemos.

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Dentre outros lançamentos, é importante destacar o álbum “WAT” (2003). Suas temáticas principais são o terrorismo e a guerra ao terror, numa época em que o mundo se via abalado após os atentados de 11 de Setembro de 2001. Com canções autorais sobre guerra, xenofobia e sobre questões filosóficas, Laibach nos presenteia com mais uma excelente obra. A famosa “Tanz mit Laibach” (Dance com Laibach), nos convida a dançar enquanto somos crucificados por um sistema que nos oprime da mesma forma “com totalitarismo e com democracia”.

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“Volk” (2006) É mais um brilhante jogo com a ideia de nacionalidade. O título (povo em alemão, ou lobo, em esloveno) conta com versões próprias de hinos de diversos países, dentre eles Alemanha, Estados Unidos, Espanha, França, Rússia, Japão, China, Eslovênia e outros. Também conta com uma versão da faixa instrumental “The Great Seal” do Opus Dei, aqui apresentada como o hino nacional da NSK.

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“Spectre” (2014) Seu álbum de estúdio mais recente, é outro tema bastante filosófico. Com uma sonoridade mais pop e músicas somente em inglês, além de muitas autorreferências, nos traz questionamentos sobre os acontecimentos mundiais dos últimos anos, como o movimento Occupy e as manifestações ao redor do mundo. A primeira faixa, “Whistleblowers”, com uma estética bem ao estilo de “Geburt einer Nation” fala sobre pessoas que denunciam alguma ilegalidade ou injustiça, ou simplesmente pessoas que lutam pelo bem coletivo (uma possível referência aos próprios membros do Laibach que abdicam de sua individualidade enquanto parte de um grupo coletivista). Cantando sobre os whistleblowers (delatores) dos quatro cantos do planeta, nos transmite um sentimento de unidade.

“From north and south

We come from east and west

Breathing as one

Living in fame or dying in flame

We laugh

Our mission is blessed

We fight for you

For freedom unforseen

Thinking as one

Rolling along

To the beat of the drum

We march

The black cross machine”

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À primeira vista estranho, assustador ou talvez até cômico, o estilo do Laibach, que mistura das influências mais diversas e contraditórias como figuras da cultura pop, kitsch, arte de vanguarda e arte retrô, imagens totalitárias, sempre se reaproveitando dos mesmos e trazendo um novo contexto, independente da mensagem que querem passar, é um fenômeno que merece atenção entre artistas, críticos e entusiastas da arte em geral, e que conta com um vasto número de documentários que valem a pena ser assistidos. Qualquer que seja a época, o regime dominante ou o Zeitgeist, Laibach sempre surpreende em trazer à tona temas relevantes e que ameaçam o status quo do sistema. Com uma legião de fãs e ao mesmo tempo colaboradores de sua máquina coletivista, são um reflexo bastante honesto de nossa sociedade com todos os seus absurdos e contradições.

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