Dez romances brasileiros do século XIX


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Impérios asiáticos e europeus entravam em colapso. A escravidão começou a ser contestada até ser abolida, a Revolução Industrial foi iniciada na Inglaterra, a medicina e as ciências avançaram com inúmeras descobertas, além de novas tecnologias que deixaram o mundo mais rápido e mais produtivo, como as estradas de ferro. A crescente urbanização foi outro sintoma notório. Transformações e revoluções tomavam o mundo de assalto

No Brasil, o Século XIX não foi diferente. Em 1808, a Família Real Portuguesa fugiu do seu país de origem com medo da ameaça das Guerras Napoleônicas; em 1822, era proclamada a Independência por D. Pedro I e o Brasil deixava de ser colônia para tornar-se um país autônomo; em 1888, a Princesa Isabel abolia a escravatura e em 1889 Deodoro da Fonseca liderou um levante político-militar proclamou a república. Foram anos agitados, onde conservadores e liberais disputaram pelo poder, o abolicionismo ganhou contornos crescentes, inúmeras insurreições explodiram no país e o Brasil teve até então o seu maior conflito armado na guerra contra o Paraguai.

Enfim, o Brasil era um país de fato, com nome, soberanos, dinastias, tradições, símbolos e uma dinastia. Como não poderia deixar de ser a identidade brasileira formada na cultura tanto idealizava quanto retratava as condições e valores de uma época. Mas como se deu tal formação? Vamos conhecer dez romances que marcaram época ao longo do século e que ajudaram a tornar a literatura do “Império do Brasil” e dos “Estados Unidos do Brasil” algo único no mundo – a consolidação da literatura de um país.

quintal marciano - brasil imperio - a moreninha

A Moreninha (Joaquim Manuel de Macedo, 1844)

Ainda de grande sucesso nos dias de hoje, a recepção do livro fez com que um Joaquim Manuel de Macedo recém-formado em Medicina tivesse que abdicar da profissão na área de saúde para focar-se na literatura e jornalismo. Situado no movimento romântico, o romance rapidamente criou identificação com o público que o consumia ao falar da burguesia carioca e de seus costumes. A idealização do amor é um tema marcante aqui, fazendo com que o personagem Augusto encare uma aposta com amigos ao ir passar o feriado na casa de um amigo em uma ilha: caso se apaixonasse por uma das moças que moram na casa de D. Ana, deveria escrever um romance. Descobrimos como o personagem é namorador por na verdade ser desiludido com uma antiga paixão não concretizada na infância. Acreditando tê-la reencontrado na figura de Carolina, a moreninha, chega a cair doente quando é afastado dela. O retrato da alta sociedade lhe rendeu notoriedade na corte, tornando-se o autor mais lido do Brasil no século XIX.

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Memórias de um Sargento de Milícias (Manuel Antônio de Almeida, 1854)

Romance de folhetim publicado entre 1852 e 1853 e depois lançado em um volume único, cujo ritmo de publicação influi na própria construção da narrativa – os capítulos são curtos e episódicos, o que faz com que a atenção ainda seja garantida. Influenciado pela linguagem jornalística e chamando a atenção por retratar as ruas ao invés da classe aristocrática, contexto em voga na época. O protagonista central é Leonardo, que cresceu de um menino travesso criado pelo padrinho em um militar arruaceiro. Quebrando as convenções românticas, Manuel Antônio de Almeida escreveu um livro com passagens polêmicas à época (como quando o pai do protagonista tenta recuperar o amor de uma cigana recorrendo à feitiçaria), mas com o humor ocupando um papel central em sua construção: o protagonista malandro se utiliza da esperteza para sobreviver em um contexto hostil tendo que enfrentar o representante da lei, Major Vidigal, que revela-se uma figura moralista e corrupta e tenta conquistar o amor de Luisinha, uma rica herdeira que se se casou com um interesseiro. Com suas singularidades, o sargento de Milícias foi no mínimo um livro diferente à época, tornando-se ainda mais curioso ao ser comparado aos seus contemporâneos.

quintal marciano - brasil império - noite na taverna

Noite na Taverna (Álvares de Azevedo, 1855)

 Ultrarromântico, romântico byroniano, Álvares de Azevedo em seus breves 20 anos de vida cravou ao menos dois clássicos, todos eles publicados postumamente: a antologia poética A Lira dos Vinte Anos (1853) e a antologia de contos Noite na Taverna, um dos exemplares de literatura gótica mais representativos de nossa história. As histórias são ligadas entre cinco amigos ébrios que compartilham histórias de gelar a espinha (o que também é chamado de narrativa moldura), sempre a ver com álcool, violência, sexo e paixão. Abordando temas ainda desconfortáveis – suicídio, estupro, assassinato, canibalismo – os relatos de Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Hermann e Johann tornaram-se icônicos e o paulista vitimado precocemente pela tuberculose foi alçado a condição de nome central da nossa segunda geração romântica, com uma obra poética e desesperada que não perdeu nem um pouco do vigor de se ler hoje.

quintal marciano - brasil império - o guarani

O Guarani (José de Alencar, 1857)

A história de amor impossível entre Cecília de Moriz e o índio aimoré Peri em uma fazenda no interior do Rio de Janeiro iniciou a trilogia indianista de José de Alencar, completada com Iracema (1865) e Ubirajara (1874). Particularidade do romantismo brasileiro, a visão do indígena como herói é representada em uma história maniqueísta e bidimensional, carregada de valor simbólico: Peri é forte, dedicado e apaixonado, enquanto o homem branco é frequentemente corrupto e/ou maligno: Dom Antônio Mariz guarda um segredo de sua família, sua esposa Lauriana vê Peri como ameaça e o aventureiro e ex-frade Loredano planeja saquear a propriedade e raptar. Poucos, principalmente os jovens como Cecília, seu irmão aventureiro Diogo e a mestiça Isabel, apaixonada por ele, mostram bom coração e dedicação. À semelhança do herói medieval, Peri representava uma crítica aos costumes burgueses decadentes da Europa. Às luzes do pensamento iluminista, é visto não como um selvagem mas como um homem puro e intocado pela degeneração social dos brancos, com contornos míticos e épicos dados à trajetória do protagonista. Teve uma famosa adaptação para a ópera por Carlos Gomes em 1870.

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Inocência (Alfredo d’Escragnolle Taunay, 1872)

Um livro considerado em transição entre o romantismo e o naturalismo, o romance de Visconde de Taunay retratou como o ambiente escolhido – a cidade de Paranaíba no sertão mato-grossense – influenciava o comportamento de seus indivíduos. A protagonista-título, com 18 anos, é obrigada por seu pai, o conservador Pereira, a casar-se com o violento negociante de gado Manecão, mas na verdade está apaixonada mesmo é pelo farmacêutico Cirino. Ainda que compartilhe muitos elementos românticos – em suma, é uma tragédia amorosa que aborda casamentos arranjados que conflitam com o amor verdadeiro, já é vista uma construção bem mais humanista e falha do que a idealização do auge do Romantismo, com a Paranaíba recebendo cuidado especial do autor  em retratar os costumes, as tradições e a situação do povo daquela terra,como a hospitalidade, a crendice  e o analfabetismo, mas também retratando novas tendências do período, expressa na figura do excêntrico entomologista Dr. Meyer. Em corda bamba entre drama, comédia e romance, com personagens centrais menos planos e melhor desenvolvidos do que a maioria das obras no período o romance de maior sucesso do Visconde foi um dos livros pavimentaram o caminho para o desenvolvimento de novos

quintal marciano - brasil império - a escrava isaura

A Escrava Isaura (Bernardo Guimarães, 1875)

O Brasil analisava a si mesmo após proclamar sua Independência de Portugal, o que quer dizer que à época batalhava-se politicamente e culturalmente para firmar o país enquanto nação. Um dos grandes marcos nesses dois sentidos é a obra-prima de Bernardo Guimarães, reconhecida inclusive por Dom Pedro II. Se José de Alencar fazia por onde para exaltar a figura do índio, A Escrava Isaura é um ferrenho libelo abolicionista e também um romance fundamental na consolidação do Romantismo no Brasil. Em uma narrativa bastante idealizada conhecemos Isaura, uma escrava de pele branca, assediada frequentemente pelos  homens da trama, inclusive pelo seu inescrupuloso senhor Leôncio, que apela para os meios mais inescrupulosos para mantê-la como sua propriedade. Sua situação começa a mudar quando foge de Campo dos Goytacazes e conhece em Recife Álvaro, um jovem rico porém idealista, que se apaixona por Isaura e passa a lutar por seu amor e liberdade. Um imenso sucesso à época, é uma prova definitiva de como um ideal pode ser defendida por meio de paixão e emoção à flor da pele.

memorias postumas

Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis, 1881)

Considerada a obra que inaugurou o Realismo no Brasil, a história de Brás Cubas é considerado por muitos um dos melhores romances brasileiros com méritos de sobra. O livro é pura transgressão: dedicado ao “primeiro verme que roeu minhas frias carnes”, as memórias póstumas do personagem narrador fizeram do quinto romance do bruxo do Cosme Velho um marco transgressor por excelência de nossa literatura. A forma do livro influencia muito: “começando pelo final”, o livro é contado pelo “defunto-autor”, começando do momento de sua morte para então voltar aos seus dias entre os vivos. Rico e mimado, Brás Cubas é um personagem cômico em sua tragédia: solteirão, todos os seus relacionamentos terminam de forma; fracassa em tudo que tenta – tenta ser deputado, ministro, tenta editar um jornal de oposição, aprender o tal “Humanitismo” com o amigo de infância e filósofo Quincas Borba (personagem melhor desenvolvido no romance homônimo). Rompendo com a narração linear, intencionalmente fragmentário  e cheio de lacunas e recheado de pessimismo disfarçado de ironia, Memórias Póstumas de Brás Cubas ultrapassa quaisquer rótulos e revela-se um grande tratado sobre a condição humana.

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 O Ateneu (Raul Pompéia, 1888)

Mais um livro pertence à tradição memorialista, O Ateneu é um romance sobre o fim da infância e início da juventude de um jovem que vai para o internato – e o mundo mágico da infância logo é substituído por uma nova gama de situações desafiadoras que o forçarão a crescer, querendo ou não. Enquadrado por muitos no Realismo, também é considerado o único exemplar brasileiro de Impressionismo literário, já que o personagem narrador descreve mais suas sensações e sentimentos do que se preocupa em descrever objetivamente. Com traços autobiográficos – Raul Pompeia estudou no internato Colégio Abílio -, o autor parece ironizar com o subtítulo “Crônicas de Saudades”, já que boa parte do livro são recordações ruins, raivosas e vingativas, costurando uma crítica ao sistema educacional autoritário e conservador onde os filhos da elite estudavam, denunciando os maus tratos e injustiças que fadavam seus indivíduos ao trauma, ao moralismo e à hipocrisia. Praticamente sem enredo, o livro se concentra em um um grande número de cenas descrevendo o dia-a-dia, as aventuras e castigos do protagonista Sérgio, que narra a história já na idade adulta. O que impediu do livro soar deslocado em seu contexto pode ser explicado não só pelo tema que aborda de forma crítica mas também pelas rápidas transformações culturais à época, com o Realismo no Brasil acompanhando o conturbado cenário sócio-político à época, com o final do Império e o início da República.

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O Cortiço (Aluísio Azevedo, 1890)

Influenciado por Emile Zola e Eça de Queiroz, o romancista, jornalista, diplomata e caricaturista Aluísio Azevedo inaugurou de vez o naturalismo no Brasil com o romance O Mulato em 1881, chocando a sociedade provinciana brasileira com o seu retrato cru da situação racial no Brasil, onde já demonstrava ser um abolicionista convicto. Mas a consagração mesmo viria com a obra-prima O Cortiço, que chegou a ofuscar Machado de Assis perante à crítica da época, tamanho reconhecimento que o naturalismo possuía. Contando a história de enriquecimento de João Romão e o desenvolvimento de seu cortiço, cujo autor confere características humanas enquanto infere comportamentos animalescos a seus personagens. Pegando pesado na descrição de sexo, violência e exploração de forma frequentemente grotesca. Descrevendo o princípio do êxodo rural para as grandes cidades, o crescimento das grandes capitais e a instauração plena do capitalismo na República brasileira, é um livro essencial para entender o Brasil, sua estética e seus valores às portas do século XX.

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Bom-Crioulo (Adolfo Caminha, 1895)

Um escândalo em sua época, o naturalista Adolfo Caminha teve nesse romance o seu apogeu de uma carreira recheada de livros polêmicos, representando a vida urbana em histórias que sempre andavam às voltas com crime e perversão. A crítica massacrou Bom-Crioulo sem piedade: o livro segundo alguns seria o primeiro na história da literatura ocidental a tratar de um romance homossexual. E para gelar ainda mais a espinha dos conservadores, é passado em ambiente militar. quando o escravo foragido Amaro alista-se na Marinha para fugir da fazenda de café onde era explorado e apaixona-se pelo grumete Aleixo. Os dois vivem uma vida clandestina, com Amaro enfrentando companheiros e sendo frequentemente castigado, encontrando forças para continuar na gratidão do Amado e consolando-se com o aguardente. Com a sociedade homofóbica e racista cercando cada vez mais o protagonista apaixonado, o livro avoluma-se em tensão página a página até ter uma conclusão trágica e brutal. Chamar o livro mais famoso e mais famigerado de Adolfo Caminha de ousado ainda seria eufemismo. Naturalismo na veia.

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