5 livros de ficção científica escritos por mulheres

Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Robert Louis Stevenson, Philip K. Dick, George Orwell, Anthony Burgess, Ray Bradbury, H. G. Wells, Michael Crichton, Stanislaw Lem, Edgar Rice Burroughs, William Gibson… Na hora de citar autores de ficção científica, alguns nomes vem automaticamente à cabeça – frequentemente, homens.

Mas isso não quer dizer que as mulheres não façam parte da história da ficção especulativa social e científica. Como veremos, a seguir, elas tem uma importância fundamental. Se em 1948 elas representavam cerca de 15% de todos os autores do gênero, em 1999 o número já havia escalado para 36%.

A representatividade vem subindo década a década e hoje um dos grandes exemplos da literatura popular é a distopia Jogos Vorazes (2008 – 2010), de Suzanne Collins, escrita na medida certa entre a literatura de nicho e a best-seller, consagrando a protagonista Katniss Everdeen como um ícone pop moderno.

Mas e antes? Como foi a participação das mulheres na história do gênero? Vamos conhecer alguns exemplos.

frankenstein-mary-shelley
Frankenstein (Mary Shelley, 1818)

Escrita em um brincadeira que envolvia escritores como Lord Byron, Percy Shelley e John Polidori quando fazia um tempo terrível às margens do lago Léman, o que os inspirou a escrever histórias de terror e ler para os outros hóspedes, Mary Shelley impressionou a todos com Frankenstein ou o Prometeu Moderno, que simplesmente inaugurou a ficção científica. A trágica história do estudante de ciências Victor Frankenstein e sua ruína mental e física ao criar um gigantesco humano artificial inaugurou um sem número de tradições dentro do gênero, como a especulação em cima de um fato plausível e a reflexão metafórica sobre os limites da intervenção humana. Fadado a ser rejeitado e temido, o raivoso Monstro de Frankenstein busca a reparação do arrependido criador que o abandonou à própria sorte. A história de como irão aniquilar um ao outro teve inspirações do Romantismo, com o Monstro surgindo como espelho de Victor, reflexo deformado do seu ego narcisista e torturado. Em uma história sem noções fáceis de “certo” e “errado”, aqui a única coisa mais terrível que um monstro criado por mãos humanas é a nossa intolerância com o que é diferente e o nosso medo do desconhecido. Um clássico seminal.

a mão esquerda da escuridão

A Mão Esquerda da Escuridão (Ursula K. Le Guin, 1969) 

Influência de Salman Rushdie e Neil Gaiman e cruzando uma salada de inspirações, de  O Livro da Selva O Senhor dos Anéis até Virginia Woolf, as irmãs Brontë, Philip K. Dick e o Tao Te Ching, a romancista, ensaísta e poeta Ursula K. Le Guin já falou de tudo: ambientalismo, sexualidade, raça, feminismo, política… Sua obra-prima A Mão Esquerda da Escuridão é um reflexo disso: enviado ao gélido planeta Gethen para convencer seus habitantes em uma grande comunidade internacional, o emissário Genly Ai entra em choque cultural em uma rica sociedade de moldes medievais onde todos os indivíduos são andróginos e de gênero fluido, homens e mulheres ao mesmo tempo. A inexistência de discriminação de gênero naquele ambiente o torna quase incompreensível para o heterossexual e cisgênero protagonista. Com uma trama que vai se tornando cada vez mais perigosa, o romance de Le Guin é uma aula de macrocriação de um universo rico e complexo e de questionamento de valores através  da ficção.  Um filho legítimo da contracultura sessentista.

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A Chegada em Darkover (Marion Zimmer Bradley, 1972)

Consagrada mundialmente com o grande sucesso de fantasia As Brumas de Avalon, onde as lendas arturianas eram contadas da perspectiva das protagonistas femininas, Marion Zimmer Bradley também alcançou muito sucesso em sua longa saga sobre Darkover, que se estende por décadas e dezenas de novelas e contos. Apesar de não ser o primeiro livro a ser publicado sobre o universo (cujas primeiras aventuras datam de 1958, em Os Salvadores do Planeta), A Chegada em Darkover é a gênese de todo o universo, onde tudo se inicia quando uma equipe colonizadora naufraga em um planeta inóspito e perde contato com a Terra. Com o tempo, uma nova cultura é criada, com os descendentes dos náufragos desenvolvendo habilidades psíquicas, criando uma cultura e um sistema político para si e tendo que lidar com fenômenos como o “vento fantasma”. No limiar entre a ficção científica e a fantasia, o universo de Darkover sobreviveu à própria autora, com a escritora Deborah J. Ross completando os livros que Bradley deixara incompletos quando veio a falecer em 1999 e escrevendo outros inéditos desde então.

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Canopus em Argos: Arquivos – Shikasta (Doris Lessing, 1979)

Lançado em cinco volumes em um espaço de quatro anos, a série Canopus em Argos: Arquivos causou polêmica ao mostrar Doris Lessing mudando de estilo, se distanciando do realismo social e das novelas psicológicas para escrever ficção científica. A justificativa seria que, para ela, a melhor ficção social do século seria a sci-fi. Shikasta, o primeiro livro da série, conta a história secreta da Terra sob influência de impérios galáticos em guerra. A visão política de viés socialista da autora é forte aqui, com o livro  recheado de alegorias: alvo das disputas políticas, o planeta é contaminado por uma doença degenerativa que torna seus indivíduos individualistas, o que faz com que o planeta afunde em guerra e auto-destruição. Cabe ao Canopiano disfarçado como terrestre George Sherban encontrar outros de sua espécie tentar remediar o caos social e evitar uma catástrofe global. Baseada em conceitos do Sufismo, ao qual aderiu nos anos 70, Lessing se distanciou do realismo praticado até então para fazer o que definiu como “um mundo novo para mim mesma, autoconsistente e com possibilidades infinitas.”

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O Conto da Aia (Margaret Atwood, 1985)

Vendendo milhões de cópias ao redor do mundo e vencendo os principais prêmios de ficção científica ao redor do mundo, a canadense Margaret Atwood nega o gênero no qual querem incluir sua distopia, preferindo o termo “ficção especulativa”. Livro extremamente crítico e incômodo, O Conto da Aia narra a história da República de Gilead, uma teocracia Cristã militarizada que tomou o lugar dos Estados Unidos após um ataque terrorista que matou o presidente. Na república de Gilead as mulheres não têm direito nenhum: são proibidas de ler e escrever, de trabalhar e ter dinheiro, de falar e sair sem permissão, são separadas por castas e passam a ser propriedade dos maridos. Por fim, acabam perdendo até o próprio nome: o caso da protagonista “De Fred”, cujo próprio nome denota que é propriedade de um homem. Com a função de reproduzir em um país cuja taxa de natalidade cai vertiginosamente, De Fred tenta manter sua individualidade a qualquer custo, seja mantendo pequenas vaidades ou entrando em contato com uma resistência clandestina que conspira para derrubar o governo. Com passagens extremamente indigestas, Atwood cria uma distopia mais real do que gostaríamos. Uma especulação que nos deixa desconfortáveis e sabemos exatamente a razão.

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